Depois de algum tempo a pele
adquire certa acidez, provocando sensações perenes de sufoco. Em seguida,
quando a dissipação de consciência já é aceita, há ejeção de quem lá habita,
obrigando a uma ressurreição por vezes desinteressante. No entanto, adaptada às
agressões psicofísicas, fujo igual serpente modificando o covil antes que as violações
impossibilitem o movimento.
Desligo-me com facilidade
dos bens e das pessoas, graças aos contínuos homicídios mentais calculados a dedo
a fim de uma desumanização perfeita. Mas, qual máquina tem suas falhas, o
organismo teima em não esquecer os números das casas - sempre múltiplos de
três. Medíocre compensação! Porém, nunca me importei em subir ao pódio.
Dos poros, durante a
transmutação, expele-se a essência selvagem, aroma clandestino de quem prostitui
a civilidade em prol de uma justiça duvidosa. Daquilo que não é próprio, mas
devido. São os tipos de ideais que ignoram a realidade e iludem quem as segue –
cego - jurando viver em nome de algo maior do que si. Mas o mundo não muda de
casca, só faz acumular uma camada em cima da outra, tornando impenetrável o
pós-vida.
Tenho medo de verdades, por
isso vivencio as doutros e vou embora, com a esperança imatura de sobreviver sem
cicatrizes nem ferimentos nos pontos vitais. Quem dera fosse livre esse ímpeto
de querer doar-me à jaula. Dentro do próprio corpo se implanta a possibilidade
de morte antecipada, e mesmo que seja mentira, não é possível se livrar de si
sem aderir a esse fim.
Enclausurada pelos
expectadores (Do caos). Explodo! E meus pedacinhos de sentimento se misturam
com o tempo, tornando-me infinita em dor. É bonito, diz meu interior
masoquista, crente de que o sofrimento purifica a alma, mesmo eu não a tendo.
Minha alma por tua calma. Foi esse o contrato que você não propôs, mas eu
consenti.
Alguém me abraça enquanto
quase me suicido. Esse afago imprevisível faz alguma coisa viva pulsar, porém, quando
desisto, percebo que só estão cobrindo o decote para anestesiar os impulsos de
quem quer que possa sentir-se estimulado pela sexualidade que implantaram nas
minhas fraquezas. Engulo o choro, recomponho a compostura e cedo, como fera
acostumada ao cativeiro.