Encarava
aquela mulher incógnita, ainda bela, mas com algo podre germinando em si. De
uns tempos pra cá não a reconhecia. A doçura de outrora dera lugar a uma frieza
imensa, não podendo ele se locomover sem senti-la, em cada partícula do seu
corpo.
Acordou-se
no meio da madrugada. Ela, com a habitual insônia, fitava-o. Tinha olhos de
choro, o que, conscientemente, não mais o comovia. Como podia essa criatura, de
imediato, tornasse doentia? Quando o
semblante havia adotado traços tão velhos? Era surreal o encaixa com o corpo,
explodindo em juventude. Ele, com o coração palpitante, indagou:
__Por
que, afinal, permanece aqui?
Silêncio.
__Por
que insiste em amar a mim?
Ela
riu. Tão sarcástica e cretina que qualquer conhecido juraria ter sido, ela,
possuída por Satanás. Não era de seu
feitio.
__Fala
alguma coisa, porra! Por favor, fala alguma coisa! – Ele, já sem controle
emocional, implorava.
__Fico
contigo para punir-me. – Diz ela, quase
indiferente aos apelos do marido – Preciso a cada dia ser punida, punida pela
insuficiência. Pela diminuta beleza, intelecto e humor. A maldita companhia que
não te foi suficiente. Puno-me pela incapacidade de ser amada de amor
exclusivo. Puno-me ficando com um homem que nunca será meu, por mero orgulho de
não querer doar-se. Como se ser de alguém anulasse o fato de ser de si.
Ele
chorava. Ela, imersa em si, não notou. Após o desabafo a mulher adormeceu, como
se a falta de sono fosse proveniente desses acúmulos. Talvez fosse. É muito
provável que fosse. Quase certo. Pensativo, o homem custou a se deixar ir. Já
fazia um ano desde que a tinha traído pela última vez. Além do mais, não havia
amado nenhuma outra. Estava apenas cumprindo seu papel de homem, será que ela
não entendia?
Amanhecendo,
nenhum dos dois acordou. Nunca mais haveriam de acordar. Não estavam mortos,
mas trancafiados em si. E, por loucura ou sadomasoquismo, permaneceram juntos. Uma
espécie de contrato mudo obrigava-os a sofrer um com o outro. Mesma casa, mesma
cama, mesma dor.