quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Transmutação



Depois de algum tempo a pele adquire certa acidez, provocando sensações perenes de sufoco. Em seguida, quando a dissipação de consciência já é aceita, há ejeção de quem lá habita, obrigando a uma ressurreição por vezes desinteressante. No entanto, adaptada às agressões psicofísicas, fujo igual serpente modificando o covil antes que as violações impossibilitem o movimento.
Desligo-me com facilidade dos bens e das pessoas, graças aos contínuos homicídios mentais calculados a dedo a fim de uma desumanização perfeita. Mas, qual máquina tem suas falhas, o organismo teima em não esquecer os números das casas - sempre múltiplos de três. Medíocre compensação! Porém, nunca me importei em subir ao pódio.
Dos poros, durante a transmutação, expele-se a essência selvagem, aroma clandestino de quem prostitui a civilidade em prol de uma justiça duvidosa. Daquilo que não é próprio, mas devido. São os tipos de ideais que ignoram a realidade e iludem quem as segue – cego - jurando viver em nome de algo maior do que si. Mas o mundo não muda de casca, só faz acumular uma camada em cima da outra, tornando impenetrável o pós-vida.
Tenho medo de verdades, por isso vivencio as doutros e vou embora, com a esperança imatura de sobreviver sem cicatrizes nem ferimentos nos pontos vitais. Quem dera fosse livre esse ímpeto de querer doar-me à jaula. Dentro do próprio corpo se implanta a possibilidade de morte antecipada, e mesmo que seja mentira, não é possível se livrar de si sem aderir a esse fim.
Enclausurada pelos expectadores (Do caos). Explodo! E meus pedacinhos de sentimento se misturam com o tempo, tornando-me infinita em dor. É bonito, diz meu interior masoquista, crente de que o sofrimento purifica a alma, mesmo eu não a tendo. Minha alma por tua calma. Foi esse o contrato que você não propôs, mas eu consenti.
Alguém me abraça enquanto quase me suicido. Esse afago imprevisível faz alguma coisa viva pulsar, porém, quando desisto, percebo que só estão cobrindo o decote para anestesiar os impulsos de quem quer que possa sentir-se estimulado pela sexualidade que implantaram nas minhas fraquezas. Engulo o choro, recomponho a compostura e cedo, como fera acostumada ao cativeiro.

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