quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Nenhum título seria digno



                Encarava aquela mulher incógnita, ainda bela, mas com algo podre germinando em si. De uns tempos pra cá não a reconhecia. A doçura de outrora dera lugar a uma frieza imensa, não podendo ele se locomover sem senti-la, em cada partícula do seu corpo.
                Acordou-se no meio da madrugada. Ela, com a habitual insônia, fitava-o. Tinha olhos de choro, o que, conscientemente, não mais o comovia. Como podia essa criatura, de imediato, tornasse doentia?  Quando o semblante havia adotado traços tão velhos? Era surreal o encaixa com o corpo, explodindo em juventude. Ele, com o coração palpitante, indagou:
                __Por que, afinal, permanece aqui?
                Silêncio.
                __Por que insiste em amar a mim?
                Ela riu. Tão sarcástica e cretina que qualquer conhecido juraria ter sido, ela, possuída por Satanás. Não era de seu feitio.
                __Fala alguma coisa, porra! Por favor, fala alguma coisa! – Ele, já sem controle emocional, implorava.
                __Fico contigo para punir-me. – Diz ela, quase indiferente aos apelos do marido – Preciso a cada dia ser punida, punida pela insuficiência. Pela diminuta beleza, intelecto e humor. A maldita companhia que não te foi suficiente. Puno-me pela incapacidade de ser amada de amor exclusivo. Puno-me ficando com um homem que nunca será meu, por mero orgulho de não querer doar-se. Como se ser de alguém anulasse o fato de ser de si.
                Ele chorava. Ela, imersa em si, não notou. Após o desabafo a mulher adormeceu, como se a falta de sono fosse proveniente desses acúmulos. Talvez fosse. É muito provável que fosse. Quase certo. Pensativo, o homem custou a se deixar ir. Já fazia um ano desde que a tinha traído pela última vez. Além do mais, não havia amado nenhuma outra. Estava apenas cumprindo seu papel de homem, será que ela não entendia?
                Amanhecendo, nenhum dos dois acordou. Nunca mais haveriam de acordar. Não estavam mortos, mas trancafiados em si. E, por loucura ou sadomasoquismo, permaneceram juntos. Uma espécie de contrato mudo obrigava-os a sofrer um com o outro. Mesma casa, mesma cama, mesma dor.

3 comentários:

  1. Belo texto e triste sentimento, Nátali! Muito intenso, como sempre.

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  2. Me lembrou os contos do Edgar Allan Poe. <3

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  3. Nossa amiga que coisa linda, me moveu profundamente. Parabéns.

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